“E rogo não somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim;
para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, a fim de que o mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste a eles, assim como me amaste a mim.” – Jo. 17.20-23
Unidade é uma palavra comum entre os cristãos, quase um jargão em alguns momentos. Mas será que já nos detivemos, ainda que por poucos instantes, para meditar neste vocábulo tão simples, mas tão cheio de significados? O que o Velho Testamento tem a dizer sobre isto? O que o Testamento tem a dizer sobre isto? Como os dicionários definem este termo? O Dicionário Houaiss traz inúmeras definições de UNIDADE, porém, selecionei três situações apenas:
“qualidade do que apresenta similitude, harmonia, coerência com outros elementos da mesma espécie; concordância, homogeneidade, igualdade, uniformidade.”
“cada parte estruturada que, por si, forma um todo dentro de uma estrutura maior.”
”cada um dos itens de um conjunto ou sistema, ou dos objetos de uma produção em série.”
E gostaria de destacar das definições acima, as seguintes expressões: harmonia, cada parte estruturada, cada um dos itens de um conjunto. O que fica aparente nestas expressões? Olhe bem…de novo… Se prestar atenção notará que existe uma outra palavra implícita nelas. Qual? DIVERSIDADE. A harmonia é o resultado da soma de diferentes que, colocados numa determinada situação produzem um resultado único. Cada parte de um veículo, ainda que de natureza completamente diferente, produzem um resultado comum. Então, estabelece-se aqui um paradoxo: UNIDADE carrega consigo um sentido fortíssimo de DIVERSIDADE. Não é possível separar uma da outra, aliás, para que eu tenha uma unidade de algumas coisas, preciso de um número ainda maior de diferenças. Quanto mais complexa a UNIDADE, maior será o número de diferenças presentes.
Mas o que interessa isto quando se fala em CLAMOR PELA UNIDADE na Igreja? Permita-me usar o exemplo da minha: somos hoje 1 Conselho Nacional, 27 Conselhos Estaduais, 581 Regiões Eclesiásticas e Campos, 7.418 igrejas , um sem número de congregações, 25.000 obreiros, aspirantes e ministros. Tá bom de diversidade ou quer mais? Agora extrapole este pensamento juntando todas as igrejas evangélicas brasileiras.
Para que o nosso clamor tenha efeito precisamos saber o que significa UNIDADE na sua essência. Quando falamos em UNIDADE na iGREJA estamos falando de um milagre porque somente Deus pode produzir unidade num grupo desta magnitude, da mesma forma que somente Ele pode manter em atividade o universo em toda a sua diversidade.
Mas o fato de somente Ele poder trazer isto não nos afasta da responsabilidade de trazer esta Unidade, afinal você, eu, nós somos as diferenças que se fundirão nesta UNIDADE, produzindo frutos para a glória de Deus. Quando se fala em peças de uma máquina é simples, afinal elas não pensam, não agem. Nós pensamos, agimos; daí ser mais complexa a Unidade que almejamos, porém, o fato de agir e pensar deve nos levar a Palavra de Deus e refletir na responsabilidade que pesa sobre cada um de nós na construção desta unidade.
A responsabilidade individual neste processo possui diversos aspectos que vai desde a oração até a ação efetiva. Vamos pensar um pouco sobre isto e um dos melhores textos que das Escrituras para fazê-lo é João 17.
A oração mais extensa de Jesus, feita nos seus últimos dias na terra, antes da cruz. Aqui podemos captar os seus sentimentos quanto a diversos assuntos, mas um dos que se destaca no contexto é o seu CLAMOR PELA UNIDADE. (João 17.20-23). Neste clamor podemos identificar aspectos importantes da Unidade, os quais devem ser observados com muito cuidado por aqueles que são chamados por Jesus.
1. A Unidade é o desejo do coração de Cristo para os seus
Este desejo transparece de forma nítida no texto acima. Assim, quando falamos em unidade estamos falando de uma coisa que Jesus Cristo deseja ver estabelecido na sua Igreja. Não podemos lutar contra isto, conscientes ou inconscientemente. Nossas palavras, nossos atos, nosso ministério, deve em tudo conspirar para que este propósito seja alcançado. Quando opero em sentido contrário, estou operando contra a vontade de Jesus. Qual o futuro daqueles que assim agem?
2. A Unidade deve ser buscada em duas direções
Unidade vertical. Primeiramente esta unidade deve ser buscada em relação ao próprio Cristo e, conseqüentemente, em relação a Deus. Vimos acima que a unidade é um milagre de Deus. E somente Ele possui o poder de unir as nossas diferenças porque é o nosso Criador, sendo o único capaz de juntar num único propósito a sua obra.
Assim, o clamor pela unidade passa num primeiro momento pelo clamor pela presença de Deus em nós. É tempo de orarmos a canção que diz: Derrama a tua Shekinah sobre nós, não conseguiremos ficar de pé, tamanha é tua glória sobre nós…”
Observe que no verso 22 Jesus diz que nos deu a sua glória visando a unidade; logo, concluímos que a medida que unidade se espalha na igreja, isto autentica a presença da glória de Deus em nossas vidas e ministérios. Podemos declarar que temos a glória de Deus a plenos pulmões, mas se não houver unidade, serão palavras lançadas ao vento.
Depois devemos buscar a unidade horizontal. O divino deve permear nossas igrejas, penetrando nos lugares mais inusitados; produzindo uma ação que una todos os elementos diferentes, tal como acontece em um bolo. Temos ali a farinha, ovos, leite, sal, açúcar, manteiga e tantos outros elementos; porém, a visão final é uma só. Podemos até distinguir o sabor de um elemento ou outro, mas não se pode mais separá-los.
À medida que o divino invade nossas vidas e nossas almas, a fusão das diferenças começa a acontecer. Logo, não se vê mais uma presidência, uma supervisão, uma superintendência ou um pastor titular; o que se vê é a Igreja do Evangelho Quadrangular, crescendo, sob o poder do Espírito e da Palavra, “…que penetra até a divisão das juntas e medulas, até a divisão da alma e do espírito e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” Estes agentes quebram os elementos, destroem as diferenças, fazendo com que juntas, cada uma ofereça ao corpo o que tem de melhor.
Porém, a nossa responsabilidade vai além disso. Temos outras coisas que dependem da ação de nós, igreja, na busca pela unidade.
3. A unidade é uma marca que viabiliza ao mundo o conhecimento da obra de Jesus e do amor de Deus
Antes, porém, de analisar outras coisas que dependem da nossa ação, gostaria de me ter em outro aspecto importantíssimo da unidade. Quando Jesus clama pela unidade ele o faz visando algo maior que o simples bem estar da sua Igreja: Ele estava preocupado com aqueles que ainda não o conheciam.
Temos nos preocupado com tantas coisas em nome da pregação do Evangelho, mas precisamos priorizar duas coisas. Uma delas que não é assunto deste artigo é o amor: Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros (Jo. 13.35). A outra, tema deste informativo, a UNIDADE. Por duas vezes neste texto, Jesus enfatiza que a nossa unidade faz com que o mundo saiba quem é Jesus e quem o enviou a este mundo. UNIDADE é viver o Evangelho, UNIDADE é evangelizar.
4. A unidade deve ser preservada
Veja as palavras que Paulo dirigiu aos efésios: “…procurando diligentemente guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz.”. Unidade é uma conquista. Unidade é a certeza que existe relacionamento fluindo na vertical e na horizontal. Como toda conquista deve ser preservada e defendida. Lucas 8.40 narra a história de Jairo. Um fato que chamou a minha atenção é o final da narrativa, onde Jesus ordena que a menina seja alimentada. Por quê Jesus fêz isto? Que lição queria ensinar para Jairo? O que o Espírito colocou em meu coração é algo que jamais me esquecerei: a lição é simples: ressuscitar sua filha é tarefa minha, mantê-la viva é tarefa sua. Realizar o milagre da UNIDADE é tarefa dele, em resposta ao nosso clamor, mantê-la é tarefa nossa.
5. A unidade é um dos alvos finais de Deus para a Igreja
De novo, citando Paulo: “…até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo;…”.
A nossa luta na preservação e defesa da unidade se fundamenta no fato que é para isto que estamos sendo transformados de dia em dia. O final de nossa caminhada é a unidade da fé. Curiosamente aqui voltamos ao início desta meditação. Paulo está ensinando neste capítulo acerca da função dos dons ministeriais e ele afirma que este trabalho que Deus está realizando na sua noiva se processa por meio uma série destas diferenças chamadas dons: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Alguém chamou isto de “A mão forte de Deus”. As diferentes ações de Efésios, somadas aos dons de Romanos, se constituem numa série de ferramentas da ação de Deus no corpo de Cristo.
Estamos vivendo dias difíceis, onde somente poderemos vencer e permanecer se estivermos juntos, combatendo o mesmo combate, guardando a nossa fé. Enquanto o mundo se esfacela diante de nossos olhos é hora de clamarmos por unidade. Se fizermos isto, estaremos seguros e trazendo segurança aos que nos cercam. A segurança que existe um Deus que os ama e por amar tanto assim enviou a Jesus Cristo, Deus nosso e Salvador nosso. Para que eles saibam, precisamos viver em unidade, precisamos CLAMAR PELA UNIDADE, tendo o compromisso de preservá-la na medida que for conquistada. Esta é a nossa parte. Esta foi a oração de Jesus por você e por mim.
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